domingo, 12 de abril de 2015

Ao proclamar Jubileu, Francisco imagina uma Igreja não julgadora, nem condenadora!


Ao proclamar oficialmente o próximo ano do Jubileu da Misericórdia, o Papa Francisco convidou poderosamente toda a Igreja Católica a se remodelar como um lugar não de julgamento ou de condenação, mas de perdão e de amor misericordioso.

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada no sítio National Catholic Reporter, 11-04-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto ao IHU.

Escrevendo um extenso documento de convocação do ano, que começará no dia 8 de dezembro, o pontífice afirma que a "própria credibilidade da Igreja passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo".

"Talvez, demasiado tempo, nos tenhamos esquecido de apontar e viver o caminho da misericórdia", escreve Francisco no documento, divulgado nesse sábado à noite, com o título latino de Misericordiae vultus ("O rosto da Misericórdia").

"A tentação de pretender sempre e só a justiça fez esquecer que esta é apenas o primeiro passo, necessário e indispensável", continuou o papa.

"Chegou de novo, para a Igreja, o tempo de assumir o anúncio jubiloso do perdão", afirma.

"É o tempo de regresso ao essencial, para cuidar das fraquezas e dificuldades dos nossos irmãos", escreve o pontífice. "O perdão é uma força que ressuscita para nova vida e infunde a coragem para olhar o futuro com esperança."

Francisco também observou que o dia 8 de dezembro marca o 50º aniversário do encerramento do Concílio Vaticano II e diz: "A Igreja sente a necessidade de manter vivo aquele acontecimento."

O documento de Francisco, lançado nesse sábado, durante um momento de oração na Basílica de São Pedro para a celebração do Domingo da Divina Misericórdia, proclama oficialmente o ano jubilar extraordinário que o pontífice anunciou pela primeira vez no mês passado.

O Jubileu, que é chamado de Ano Santo da Misericórdia, começará na festa católica da Imaculada Conceição deste ano. E terminará no dia 20 de novembro de 2016, o dia em que se celebrará, naquele ano, a festa de Cristo Rei.

Explicando as suas razões para convocar o Jubileu da Misericórdia com o documento de cerca de nove mil palavras nesse sábado, o pontífice identifica firmemente a misericórdia como a função central da Igreja e o aspecto-chave do ministério e da obra de Jesus.

Citando exaustivamente ensinamentos dos papas anteriores e histórias do Antigo e do Novo Testamentos, Francisco também diz que a misericórdia é um atributo-chave das ações de Deus para com os seres humanos e que o nosso próprio exercício do perdão vai determinar como finalmente seremos julgados.

Em uma seção, o papa cita a pergunta de Pedro no Evangelho de Mateus sobre quantas vezes é necessário perdoar, em que Jesus responde: "Eu não digo sete vezes, mas até setenta vezes sete".

"Essa parábola contém um ensinamento profundo para cada um de nós", afirma Francisco. "Jesus declara que a misericórdia não é apenas o agir do Pai, mas torna-se o critério para identificar quem são os seus verdadeiros filhos."

"Em suma, somos chamados a viver de misericórdia, porque, primeiro, foi usada misericórdia para conosco", continua. "O perdão das ofensas torna-se a expressão mais evidente do amor misericordioso e, para nós cristãos, é um imperativo de que não podemos prescindir."

Mais adiante no documento, o papa menciona que todo ano santo envolve um processo de peregrinação para as pessoas – seja na ida a Roma para celebrar o ano, seja na oração pessoal.

Depois, citando o Evangelho de Lucas, Francisco apresenta dois passos que todos precisam fazer nas suas próprias peregrinações.

"O Senhor nos diz, acima de tudo, para não julgar nem condenar", afirma o pontífice. "Se uma pessoa não quer incorrer no juízo de Deus, não pode tornar-se juiz do seu irmão."

"As pessoas, no seu juízo, limitam-se a ler a superfície, enquanto o Pai vê o íntimo", escreve Francisco.

Um ano jubilar é um ano especial convocado pela Igreja para receber a bênção e o perdão de Deus e a remissão dos pecados. A Igreja Católica convocou anos jubilares a cada 25 ou 50 anos desde o ano de 1300 e também convocou anos jubilares especiais de tempos em tempos, conhecidos como anos jubilares extraordinários.

O papa começa o documento desse sábado explicando o processo do Ano Santo, dizendo que, no dia 8 de dezembro, ele vai abrir a Porta Santa especial da Basílica de São Pedro para marcar o início do Jubileu.

Francisco afirma esperar que, com a sua abertura, a porta "será, então, Porta da Misericórdia, onde qualquer pessoa que entre poderá experimentar o amor de Deus que consola, perdoa e dá esperança."

Para enfatizar que o ano especial não é apenas para aqueles que poderão ir até Roma, o pontífice disse que vai pedir que todas as dioceses identifiquem uma "Porta da Misericórdia" semelhante em uma catedral ou em outra Igreja especial a ser aberta durante o ano.

"Cada Igreja particular estará diretamente envolvida na vivência desse Ano Santo como um momento extraordinário de graça e renovação espiritual", escreve o papa.

Francisco observa que o Ano Santo começará no 50º aniversário do encerramento do Concílio Vaticano II.

"Com o Concílio, começava para a Igreja um percurso novo da sua história", escreve Francisco. "Os Padres conciliares, reunidos no Concílio, tinham sentido forte, como um verdadeiro sopro do Espírito, a exigência de falar de Deus aos homens do seu tempo de modo mais compreensível."

"Derrubadas as muralhas que, por demasiado tempo, tinham encerrado a Igreja numa cidadela privilegiada, chegara o tempo de anunciar o Evangelho de maneira nova", continua. "Foi uma nova etapa na evangelização de sempre."

Dentre outras iniciativas especiais para o Ano Santo, Francisco também anunciou nesse sábado que, durante o tempo da Quaresma de 2016, ele vai pedir que alguns padres atuem como "Missionários da Misericórdia" especiais.

O pontífice diz que vai pedir que esses sacerdotes vão pelo mundo para ouvir confissões e que ele vai lhes conceder "autoridade de perdoar mesmo os pecados reservados à Sé Apostólica."

Com essa autoridade, diz o papa, os padres serão "sinal vivo de como o Pai acolhe a todos aqueles que andam à procura do seu perdão".

"Peço aos irmãos bispos que convidem e acolham esses Missionários, para que sejam, acima de tudo, pregadores convincentes da misericórdia", escreve Francisco.

O pontífice também diz que ele está dando ao Ano Santo um lema tirado do Evangelho de Lucas: "Misericordiosos como o Pai".

"A justiça de Deus é a Sua misericórdia"

Francisco passa cerca de duas páginas do documento abordando a relação entre misericórdia e justiça, que ele diz, "não são dois aspectos em contraste entre si, mas duas dimensões duma única realidade que se desenvolve gradualmente até atingir o seu clímax na plenitude do amor".

Mencionando o uso frequente da Bíblia da imagem de Deus como um juiz, Francisco diz que, em muitas passagens, "é entendida como a observância integral da Lei e o comportamento de todo o bom judeu conforme aos mandamentos dados por Deus".

Mas ele continua: "Esta visão, porém, levou não poucas vezes a cair no legalismo, mistificando o sentido original e obscurecendo o valor profundo que a justiça possui".

"Para superar a perspectiva legalista, seria preciso lembrar que, na Sagrada Escritura, a justiça é concebida essencialmente como um abandonar-se confiante à vontade de Deus", escreve o papa.

Citando a resposta aos fariseus no Evangelho de Mateus – "Ide aprender o que significa: prefiro a misericórdia ao sacrifício" –, Francisco diz: "Jesus procura mostrar o grande dom da misericórdia que busca os pecadores para lhes oferecer o perdão e a salvação".

"Compreende-se que Jesus, por causa dessa sua visão tão libertadora e fonte de renovação, tenha sido rejeitado pelos fariseus e os doutores da lei", continua. "Estes, para ser fiéis à lei, limitavam-se a colocar pesos sobre os ombros das pessoas, anulando porém a misericórdia do Pai."

Meditando em seguida sobre a carta de Paulo aos Filipenses, Francisco afirma que "a sua compreensão da justiça muda radicalmente: Paulo agora põe no primeiro lugar a fé, e já não a lei".

"Não é a observância da lei que salva, mas a fé em Jesus Cristo, que, pela sua morte e ressurreição, traz a salvação com a misericórdia que justifica", escreve o papa.

"A justiça de Deus torna-se agora a libertação para quantos estão oprimidos pela escravidão do pecado e todas as suas consequências", continua. "A justiça de Deus é o seu perdão."

Continuando sobre esse tema, explorando as palavras do profeta Oseias, Francisco afirma: "Se Deus Se detivesse na justiça, deixaria de ser Deus; seria como todos os homens que clamam pelo respeito da lei".

"A justiça por si só não é suficiente", escreve ele. "A experiência mostra que, limitando-se a apelar para ela, corre-se o risco de a destruir. Por isso Deus, com a misericórdia e o perdão, passa além da justiça."

Jesus: "Nada além de amor"

No início do documento, Francisco se foca no ministério de Jesus durante a sua vida terrena como sinal da centralidade da misericórdia na fé cristã.

Citando São Tomás de Aquino, Francisco diz que "a misericórdia divina não é, de modo algum, um sinal de fraqueza, mas antes a qualidade da omnipotência de Deus".

"A misericórdia de Deus não é uma ideia abstrata, mas uma realidade concreta, pela qual Ele revela o seu amor como o de um pai e de uma mãe que se comovem pelo próprio filho até ao mais íntimo das suas entranhas", afirma o papa.

"É verdadeiramente o caso de dizer que é um amor 'visceral'", diz. "Provém do íntimo como um sentimento profundo, natural, feito de ternura e compaixão, de indulgência e perdão."

Francisco menciona como o relato do Evangelho de Mateus sobre a paixão de Jesus afirma que, antes da sua morte, Jesus cantou um hino que pode ter sido o Salmo 136: "Eterna é a sua misericórdia."

"Enquanto instituía a Eucaristia, como memorial perpétuo d’Ele e da sua Páscoa, Jesus colocava simbolicamente este ato supremo da Revelação sob a luz da misericórdia", escreve Francisco.

"No mesmo horizonte da misericórdia, viveu Ele a sua paixão e morte, ciente do grande mistério de amor que se realizaria na cruz", continua.

"Saber que o próprio Jesus rezou com esse Salmo torna-o, para nós cristãos, ainda mais importante e compromete-nos a assumir o refrão na nossa oração de louvor diária: 'eterna é a sua misericórdia'."

A pessoa de Jesus, diz Francisco, "não é senão amor, um amor que se dá gratuitamente".

"O seu relacionamento com as pessoas, que se aproximam d’Ele, manifesta algo de único e irrepetível", afirma o papa. "Os sinais que realiza, sobretudo para com os pecadores, as pessoas pobres, marginalizadas, doentes e atribuladas, decorrem sob o signo da misericórdia. Tudo n’Ele fala de misericórdia."

"N’Ele, nada há que seja desprovido de compaixão", diz.

Jesus, diz Francisco, também revela a natureza de Deus "como a de um Pai que nunca se dá por vencido enquanto não tiver dissolvido o pecado e superada a recusa com a compaixão e a misericórdia."

Mencionando a quinto bem-aventurança – "Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia" –, o papa afirma que "é a bem-aventurança a que devemos nos inspirar, com particular empenho, neste Ano Santo".

Falando sobre como Deus age com os seres humanos, o papa diz que "a misericórdia é a palavra-chave para indicar o agir de Deus para conosco".

"A misericórdia de Deus é a sua responsabilidade por nós", escreve Francisco. Ele sente-Se responsável, isto é, deseja o nosso bem e quer ver-nos felizes, cheios de alegria e serenos."

"E, em sintonia com isto, se deve orientar o amor misericordioso dos cristãos", continua ele. "Tal como ama o Pai, assim também amam os filhos. Tal como Ele é misericordioso, assim somos chamados também nós a ser misericordiosos uns para com os outros."

Aplicando esse atributo para o nível da Igreja, Francisco afirma: "A arquitrave que suporta a vida da Igreja é a misericórdia."

"Toda a sua ação pastoral deveria estar envolvida pela ternura com que se dirige aos crentes; no anúncio e testemunho que oferece ao mundo, nada pode ser desprovido de misericórdia", escreve o papa.

"Abrindo os nossos corações"

O pontífice também pede que as pessoas vivam o Ano Santo ao "abrir o coração àqueles que vivem nas mais variadas periferias existenciais, que muitas vezes o mundo contemporâneo cria de forma dramática".

"Quantas situações de precariedade e sofrimento presentes no mundo atual!", exorta Francisco. "Quantas feridas gravadas na carne de muitos que já não têm voz, porque o seu grito foi esmorecendo e se apagou por causa da indiferença dos povos ricos!"

"Não nos deixemos cair na indiferença que humilha, na habituação que anestesia o espírito e impede de descobrir a novidade, no cinismo que destrói", continua.

"Abramos os nossos olhos para ver as misérias do mundo, as feridas de tantos irmãos e irmãs privados da própria dignidade e sintamo-nos desafiados a escutar o seu grito de ajuda!", exorta ele mais uma vez.

Francisco também diz que é o seu "desejo ardente" que, durante o Ano Jubilar, as pessoas reflitam sobre as obras corporais e espirituais de misericórdia, as ações e práticas cristãs atribuídas a diretriz de Jesus no Evangelho de Mateus sobre como os seus seguidores devem agir.

"Não podemos escapar às palavras do Senhor, com base nas quais seremos julgados: se demos de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede; se acolhemos o estrangeiro e vestimos quem está nu; se reservamos tempo para visitar quem está doente e preso", afirma Francisco.

Dimensão inter-religiosa

Francisco também se refere à prática do jubileu da misericórdia no judaísmo e no islamismo, dizendo: "A misericórdia possui uma valência que ultrapassa as fronteiras da Igreja."

O papa observa tanto que "as páginas do Antigo Testamento estão permeadas de misericórdia", quanto que os muçulmanos frequentemente se referem ao Criador como "Misericordioso e Clemente".

"Possa este Ano Jubilar, vivido na misericórdia, favorecer o encontro com estas religiões e com as outras nobres tradições religiosas", afirma Francisco.

"Que ele nos torne mais abertos ao diálogo, para melhor nos conhecermos e compreendermos; elimine todas as formas de fechamento e desprezo e expulse todas as formas de violência e discriminação", pede o papa.

O documento de Francisco que proclama o Ano Santo, oficialmente conhecido como uma bula de proclamação, foi divulgado pelo Vaticano em seis idiomas.

Durante o momento de oração do sábado, Francisco simbolicamente entregou a bula aos quatro cardeais arciprestes das basílicas papais. Ele também deu uma cópia para o cardeal Marc Ouellet, prefeito da Congregação para os Bispos, para a distribuição aos bispos de todo o mundo.

O documento é assinado por Francisco com o título de "bispo de Roma, Servo dos Servos de Deus" e tem uma invocação "a quantos lerem esta carta graça, misericórdia e paz".

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