sábado, 4 de abril de 2015

Os discípulos de Emaús e a fé no Ressuscitado

                 

Dois discípulos abandonam o grupo que se encontra reunido em Jerusalém. Caminham com ar entristecido. Seu estado de ânimo, após a crucificação de Jesus, é de tristeza, desolação e desesperança. Sua fé em Jesus apagou-se.  Já não esperam nada dele. Aparentemente dispõem de todo quando poderia levá-los à fé em Jesus Cristo. Conhecem as  Escrituras de Israel, conviveram com Jesus, ouviram sua mensagem, viram-no atuar como um  ‘profeta poderoso”, ouviram o anúncio pascal das mulheres, que dizem que o crucificado “está vivo” e seus companheiros confirmam que o sepulcro está vazio.  Tudo é inútil.  Sua fé continua morta. Falta-lhes o mais decisivo. Reconhecer a presença do Ressuscitado em suas vidas, encontrar-se pessoalmente com o Cristo vivo.




Embora caminhem tristes e desalentados, aqueles discípulos continuam lembrando  Jesus “ e conversam e discutem sobre ele”.  Enquanto caminham, o Ressuscitado “se aproxima”, se faz presente em sua conversa e se põe a andar com eles. Jesus os convida a recordar  “o que aconteceu”. Os dois discípulos reavivam sua memória e relembram tudo.  Falam ao desconhecido sobre  “Jesus de Nazaré”:  foi “um profeta poderoso em obras e em palavras diante de Deus e de todo o povo”; mas, os dirigentes religiosos o crucificaram; neles havia despertado a esperança de que seria ele que libertaria Israel, mas sua execução  acabou com todas as expectativas; nem a notícia de que Jesus está vivo conseguiu reavivar sua fé nele. Então, Jesus começa a explicar-lhes, à luz das Escrituras, o verdadeiro sentido dos acontecimentos e do destino de paixão e  ressurreição do Messias.

O que Lucas sugere é de grande importância. Lá onde um grupo de pessoas caminha pela vida  procurando descobrir o significado das palavras e obras do profeta Jesus de Nazaré, lá onde se faz memória de sua paixão e se ouve a notícia de sua ressurreição…, ali se faz presente o Ressuscitado. É uma presença real de alguém que nos acompanha  no caminho; uma presença não fácil de captar, porque nossos olhos podem estar incapacitados de conhecê-lo; uma presença que nos convida a reconhecer  que somos “tardos de coração para crer”. Mas é uma presença que vai despertando neles a esperança. Mais tarde confessarão que, enquanto Jesus lhes falava pelo caminho, “seu coração ardia dentro deles”. Um caminho para encontrar-nos  com Cristo Ressuscitado é sentir que nosso coração se inflama com sua presença, é reunir-se em seu nome, ler os evangelhos, procurando descobrir o sentido profundo de suas palavras e seus atos, lembrar sua crucificação e ouvir, a partir de dentro com coração confiante, o anúncio de sua ressurreição.

E não basta isso. É necessária, além disso,  a experiência da ceia eucarística para reconhecer a presença do Senhor ressuscitado, não só como alguém que ilumina nossa  vida com sua Palavra, mas como alguém que nos alimenta em sua Ceia.  É o que sugere o relato de Lucas. Os discípulos pedem ao viajante que não os abandone. E Jesus “entra para ficar com eles”. Os três caminhantes sentam-se à mesa para cear  juntos como amigos e irmãos. Quando Jesus toma o pão, pronuncia a bênção, parte-o e o vai dando “abrem-se lhes o olhos e eles o reconhecem”. É suficiente reconhecer sua presença, mesmo que seja por alguns instantes. A experiência de sentir-se alimentado por ele transforma suas vidas. Agora se dão conta que as esperanças que haviam depositado em Jesus não eram excessivas, mas demasiado pequenas e limitadas. Recuperam o sentido de suas vidas. Retornam  à comunidade dos discípulos e “contam o que lhes aconteceu no caminho e como o reconheceram ao partir do pão”.

Nossa fé em  Cristo ressuscitado  não é só fruto do sinal do sepulcro vazio nem do testemunho do que  viveram a experiência de encontrar-se com ele. É necessário, além disso,  reconhecer a presença de Cristo  vivo em nossa própria vida. Lucas sugere duas experiências privilegiadas  pela comunidade cristã:  a escuta pessoal da Palavra interpretada por  Cristo e em Cristo e experiência da ceia fraterna da eucaristia.

José Antonio Pagola, no livro “Jesus, Aproximação histórica”, Vozes,  p. 559-561

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