domingo, 5 de abril de 2015

Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor

Qual é o poder deste crucificado? A atração irresistível da Verdade. Verdade que não vem acrescentar-se às “verdades”, ao que já existe no homem, mas que desvela o que faz no homem a sua humanidade e que, no entanto, se mantém oculto para nós: o Amor, pois Amor e Verdade se esposam.

Eis o texto:

“Eis o homem”


A ninguém passam despercebidas as semelhanças que existem entre a profecia do Servo (1ª leitura) e os relatos da Paixão. Os evangelistas tinham com certeza Isaías em mente, ao redigirem o seu texto. Tem-se a impressão de que Jesus segue um modelo pré-fabricado. Os exegetas se perguntam quem seria este Servo sofredor, de Isaías 52-53. Seria Davi, perseguido por Saul? Seria Jeremias, o profeta perseguido? Ou o povo de Israel, hostilizado pelos pagãos? É forçoso responder: são estes e muitos outros mais, ou seja, todos os que foram, são e serão um dia levados a bradar “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Marcos 15,34). Jesus assume as dores e angústias de todos os perseguidos da história, de todos os que sofreram, sofrem e sofrerão por não importa qual motivo.“Eis o homem”, diz Pilatos: eis todo o homem e os homens todos!
No texto de Isaías, em vista do estado miserável a que foi reduzido o Servo sofredor, as testemunhas o tomam primeiramente por um pecador castigado por Deus, um “leproso” a ser evitado. Mas, bruscamente (Isaías 53,4), elas se voltam em outra direção: o que ali vemos, somos nós mesmos! Este homem é a revelação do nosso mal e da nossa desgraça, conhecida ou ignorada. Ele carrega o pecado do mundo e é forçoso que voltemos o nosso olhar para aquele a quem trespassamos. Nele se manifestam as dimensões todas da perversidade que trazemos sempre disfarçada, bem como “a largura, a altura e a profundidade do amor” de um Deus que, até este extremo, quis ser Emanuel, o “Deus-conosco”.

Falência da justiça


A Paixão é um processo. A Bíblia está cheia de alusões ao processo que Deus move contra os homens: é o tema do julgamento. Assistimos aqui, porém, ao processo que os homens movem contra Deus. Aliás, um duplo processo: o dos judeus (que O conhecem) e o dos pagãos (que não sabem onde se encontra a verdade). Os dois irmãos inimigos que, nas Escrituras, materializam o imemorial conflito entre o homem e o homem, participam agora da condenação à morte do Justo. Uma primeira conivência, um primeiro entendimento, perverso, na execução compartilhada deste ato supremo de injustiça. Esta primeira cumplicidade irá se reverter depois, para se tornar uma aliança, no amor, entre judeus e não judeus. Isto se dá por obra do Espírito que Jesus “emite” no momento mesmo da sua morte (João 19,30: “paredoken to pneuma”). Mas, naquela espera, a justiça é ridicularizada pelos homens! Pois Jesus os segue neste caminho, renuncia também Ele à justiça: os culpados não serão punidos, mas salvos. Tudo é subvertido pela Paixão do Cristo. E nós ficamos definitivamente isentos do regime da justiça, em virtude da qual poderíamos ser condenados. A Paixão é a sentença de absolvição para todos os pecadores!

Da justiça ao amor



Não é possível inventariar tudo o que nos revela a Paixão segundo São João. Notemos que Jesus aparece, no seio mesmo da sua humilhação, como Mestre e Senhor. No Jardim das Oliveiras, os guardas caem por terra ante a revelação da sua identidade (18,6). Ele não julga diretamente o guarda que o esbofeteia, mas convida-o a julgar-se a si próprio (18,23). Mas, ao contrário, avalia a falta de Pilatos, comparando-a com a "daquele que o entregou" (19,11). Assim se exerce o julgamento no qual o veredicto será sempre de perdão: não se trata de ignorar a culpa, mas de absolvê-la! Desviar os olhos do que foi trespassado é passar ao largo do perdão. Jesus é Senhor e até mesmo Rei (18,23-38). Ora, todo Rei exerce o poder. Qual é o poder deste crucificado? A atração irresistível da Verdade. Verdade que não vem acrescentar-se às “verdades”, ao que já existe no homem, mas que desvela o que faz no homem a sua humanidade e que, no entanto, se mantém oculto para nós: o amor, pois amor e verdade se esposam. Esta é a onipotência de um amor poderoso o bastante para renunciar ao poder e assim poder ir ao encontro amoroso da fraqueza. Retornamos então ao início do relato de São João: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (13,1).




Referências bíblicas:
1ª leitura: Isaías 52,13-53,12
Salmo: 30(31)
2ª leitura: Hebreus 4,14-16.5,7-9
Evangelho: João 18,1-19,42


OBS.: A reflexão é de Marcel Domergue, sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras da Sexta-Feira Santa, em memória da Paixão do Senhor (03 de Abril de 2015). A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara, e José J. Lara para o site do IHU.

Nenhum comentário:

Postar um comentário