sábado, 27 de junho de 2015

Pedro e Paulo, dois gigantes da fé


Pedro era um pescador Galileu, das margens do Lago de Tiberíades. Paulo era um judeu letrado, cidadão romano da cidade de Tarso. Ambos viram sua vida ser revirada por Jesus e foram os primeiros propagadores da fé nascente. São as duas colunas da Igreja. A tradição sempre os festejou juntos, em 29 de junho

A reflexão é de François Lestang e de Alain Marchadour, publicada no sítio Croire, comentando as leituras do Domingo, 28 de junho de 2015, Festa de São Pedro e São Paulo. A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara, e José J. Lara para o IHU.

Eis o texto.

Uma fé de ressuscitado


Depois da ressurreição e da ascensão, Pedro torna-se o porta-voz de toda a comunidade; seus discursos manifestam que lhe foi aberta a inteligência das Escrituras. Homem de fé, nós o vemos curar um coxo de nascença, em nome de Jesus, e a tantos outros que, colocados em macas, são levados para a rua “para que, ao passar Pedro, ao menos a sua sombra cobrisse alguns deles”. Chegou até mesmo a ressuscitar uma viúva. Homem de fé, vemo-lo afirmar perante as autoridades do Templo: "não há debaixo do céu outro nome dado aos homens (senão o de Jesus) pelo qual devamos ser salvos" (Atos 4,12). E, junto com João, ao serem levados à prisão por causa de Jesus, encherem-se de alegria por sofrer pelo Messias, certos da sua vitória. Quando o Senhor quis estender a comunidade crente para além dos limites do judaísmo, uma visão foi enviada a Pedro, para fazê-lo compreender que os pagãos também são chamados à fé em Jesus. E tornou-se o artífice da acolhida destes à comunidade dos crentes (Atos 10-11). Quando, enfim, Pedro foi ameaçado de morte pelo rei Herodes Agripa, por ocasião da Páscoa (Atos 12), Deus o libertou das correntes da prisão, assim como o foi Jesus das cadeias da morte. Agora, Pedro pode partir para dar testemunho da sua fé aonde Deus irá conduzi-lo[1].

O fariseu torna-se discípulo de Jesus


Paulo, este gigante da história religiosa, se viu transfigurar por seu encontro com Jesus, na estrada de Damasco. Seus escritos não cessaram desde então de iluminar a fé dos crentes. Suas cartas às comunidades abrem uma janela sobre a vida e as crenças dos primeiros cristãos. Os cristãos de hoje conhecem muitas coisas sobre Paulo, graças particularmente à liturgia. Mas sabem também que a sua história e a sua personalidade comportam zonas de sombra. Já no fim do primeiro século, a segunda carta de Pedro sublinha que "em suas cartas se encontram alguns pontos difíceis de entender, que os ignorantes e vacilantes torcem o sentido" (2 Pedro 3,16). Ora, 2.000 anos mais tarde, as coisas não são mais simples. Na missa, proclamamos “leitura da carta aos Romanos”, mas não somos Romanos nem, menos ainda, seus contemporâneos. Isto, no entanto, não deve ser motivo para nos desencorajarmos. Estes pontos obscuros são inevitáveis, em se tratando de um homem que viveu há 2.000 anos. De qual personagem do primeiro século podemos dispor de documentação tão farta como a que temos de Paulo? Uma simples constatação: tanto os Atos como as cartas de Paulo são muito discretos sobre a sua vida privada. O que é devido ao pudor natural do homem bíblico e, portanto, também de Paulo. Ele não gosta de falar do que não está ligado diretamente à sua missão. Somente para se defender, aceita abrir algumas brechas, tão mais preciosas quanto raras. Tem-se também a impressão de que a iluminação do caminho de Damasco tenha sido de tal modo poderosa, que jogou como que um véu em cima de tudo o que foi a sua vida pregressa[2].

Pedro e Paulo, dois gigantes da fé


Pedro e Paulo permaneceram juntos em sua confissão de fé até ao derramamento do sangue, em Roma, onde foram martirizados por sua fé em Jesus. Três anos depois de sua conversão (em 37), Paulo desejou ir a Jerusalém para ver Pedro (Gálatas 1,18-19). São dois gigantes da fé que se encontram. Para Paulo, suspeito de manter-se afastado dos outros, é essencial fazer os Gálatas compreenderem que, desde o início, jamais foi este o caso. É verdade que esperou três anos, o que sublinha a sua liberdade e a sua vocação própria, nascida no caminho de Damasco. Mas, para confrontar a acusação de se manter isolado e à parte, faz questão de que os Gálatas saibam que quis se encontrar com o chefe da Igreja.

O primeiro Concílio


O segundo encontro entre Paulo e Pedro se dá muito mais tarde, após a segunda viagem de Paulo, sem dúvida em 51. Paulo havia adquirido experiência, havia recebido muito da comunidade de Antioquia, onde passou doze anos. Aprendeu a trabalhar com Barnabé, e depois sozinho, como responsável pela Igreja, sendo ajudado por colaboradores bem escolhidos. Em seu longo período missionário, surgiram conflitos entre as diversas correntes, no que se referia sobretudo à abertura para o mundo pagão: seria preciso impor aos pagãos as instituições e os ritos judeus (circuncisão, festas, sábado, regras alimentares), como pensava Tiago, o irmão do Senhor? Ou, conforme a prática de Paulo, seria preciso libertar-se destes ritos, para oferecer a mensagem de Jesus em sua radicalidade e sua pureza às nações pagãs? O conflito é sério. Um encontro oficial entre as grandes figuras da Igreja foi então organizado em Jerusalém, para se buscar compor um bom discernimento a respeito .

Duas decisões são tomadas


Temos duas versões: uma nos Atos (Atos 15,1-29) e outra na carta aos Gálatas (Gálatas 2,1-10). Com nuanças, as duas se encontram, quanto ao essencial. Duas decisões são tomadas: primeiro, as missões respectivas de Pedro, para com os Judeus, e de Paulo, para com os pagãos, são ambas reconhecidas como legítimas: "Tiago, Cefas e João, os notáveis tidos como colunas da Igreja, estenderam-nos a mão, a mim e a Barnabé, em sinal de comunhão: nós pregaríamos aos gentios e eles aos da Circuncisão". (Gálatas 2,9). É um passo importante, que deveria fazer calar os judaizantes, opositores de Paulo, e conferir-lhe uma maior liberdade de espírito para prosseguir no trabalho junto aos pagãos. E a segunda decisão, referente aos ritos alimentares particulares que os pagãos seriam convidados a respeitar (Atos 15,29). Mas parece que Paulo jamais os impôs às suas Igrejas.

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