quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Um convite ao Papa Francisco da Comunidade dos LGBT Católicos de Washington - EUA


Santo Padre, "venha e veja" por si mesmo como Deus se faz carne em nossas liturgias e em nossos amores, assim como em qualquer outra comunidade católica. E, então, não mais terá que se perguntar: "Quem sou eu para julgar?"

O artigo é de Jeff Vomund, membro do grupo de LGBT Católicos norte-americanos Dignity USA – Washington, e foi publicado no jornal The Washington Post em 20-09-2015. A tradução é de Lucas Paiva.


Papa Francisco, bem-vindo a Washington! Como todos os católicos e também todas as pessoas de boa vontade, nós nos sentimos desafiados a encontrar Deus em cada ser humano, motivados, sobretudo pela sua atenção especial para com os pobres e os marginalizados. Nós o vimos lavando os pés de mulheres e de não cristãos e fomos inspirados a ser mais inclusivos. Lemos suas palavras sobre os imperativos morais causados por nossa crise climática e fomos desafiados a mudar nossa relação com a Terra. Mas nunca fomos tão fortalecidos por suas palavras do que quando, durante a primeira viagem ao exterior de seu papado, respondeste a um repórter que lhe questionou sobre sacerdotes homossexuais de modo tão direto: "Se uma pessoa é gay, e procura o Senhor, e tem boa vontade, quem sou eu para julgar? "

Como uma organização que oferece uma casa espiritual para LGBT católicos, o Dignity USA – Washington trabalha buscando respeito e justiça para as pessoas de todas as orientações sexuais, gêneros e identidades de gênero dentro da Igreja Católica. Nós sabemos bem como é sentir-se julgado. Somos julgados por sermos honestos sobre nossa sexualidade, por buscarmos uma vida feliz e sem mentiras com nossas famílias e amigo, e, de fato, por querer ser exatamente quem somos:  LGBT s e Católicos Romanos.

Nós também amamos a nossa Igreja. Nós amamos nos reunir em torno do altar, como uma comunidade, para celebrar a Eucaristia. Nós amamos as Escrituras, a Liturgia e a Tradição de Fé que moldou nossas vidas. E ainda que, como organização, tenhamos sido exilados dos edifícios católicos e rejeitados pelos líderes católicos porque buscamos viver nossa sexualidade de forma honesta, ainda somos católicos e como tal nós o vemos como nosso Líder.

É por isso que somos tão gratos pela sua presença em nossa cidade. Aguardamos a sua chegada com esperança e expectativa. E o convidamos, Santo Padre, conforme as palavras de Jesus aos seus primeiros discípulos, para que "venha e veja".

Muitas vezes, quando a Igreja faz pronunciamentos sobre a homossexualidade e à comunidade LGBT, Ela o faz de um modo muito distante da realidade. Apesar do alto percentual de homossexuais no clero - ou talvez por conta disso – as declarações do Vaticano e dos nossos Bispos sobre as pessoas LGBT soam sempre como exercícios intelectuais de interpretação da lei natural ou dos textos bíblicos, e nunca como declarações que apontam para o grande mandamento do amor ao nosso próximo. "Intrinsecamente desordenados", como a Igreja se refere aos atos homossexuais, pode até ser uma categoria filosófica legítima, mas não é um rótulo para se colocar em irmãos e irmãs.

Somos seres humanos iguais a você e aos demais líderes da Igreja. Nós nos apaixonamos, precisamos aprender a perdoar e desejamos envelhecer rodeados por amigos e familiares. Não é, portanto, o julgamento da Igreja sobre nós que nos machuca, mas sim o fato de que somos julgados sem que nos conheçam realmente. Pois, se os líderes da Igreja nos conhecessem de fato, eles veriam todo o amor que nos rodeia. Eles conheceriam casais que se cuidam na saúde e na doença e permanecem juntos até que a morte os separe. Eles iriam sentir o poder da compreensão, especialmente a compreensão entre pais e filhos, pela qual tanto temos lutado a fim de dar sentido a quem somos. Eles conheceriam o prazer e a alegria que emana da verdadeira amizade e também conheceriam o poderoso vínculo formado entre aqueles que, juntos, sentem-se marginalizados. Qualquer um que nos conheça de perto verá que o rótulo “desordenado”, que nos é posto pelo ensino da Igreja, é na verdade um dom que dá forma ao nosso amor e às nossas vidas. Eu sei que a partir da distância da teologia filosófica, isso tudo parece impossível. Mas de perto, eu prometo, não se pode deixar de ver e sentir que isso tudo é verdade.

E assim, nós o convidamos, Santo Padre, e também nosso arcebispo, o cardeal Donald Wuerl, e todos os bispos e sacerdotes das dioceses e paróquias nas quais vivemos para que "venham e vejam". Conheçam a força do amor que sobrevive apesar da ridicularizarão e da rejeição cultural. Vejam os casais que estão juntos há décadas sempre orando e buscando fazer a vontade de Deus. Consultem-nos sobre nossa necessidade de perdão, mas também sobre a partilha dos nossos dons. Estamos confiantes de que, assim como aqueles que conheceram Jesus e sua Boa Nova , vocês reconhecerão tal como fez o apóstolo João em sua primeira Carta que: “Todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. "

Podemos discordar sobre a definição do casamento civil e do matrimônio. Podemos discordar sobre a finalidade da atividade sexual em um relacionamento homossexual. Mas também podemos, para começar, simplesmente reconhecer o amor que Deus tem por cada um de nós. Poderíamos compartilhar esse amor com você, e você com a gente - ou com qualquer outro líder da Igreja que esteja disposto a “vir e nos ver”. Nós acreditamos que assim que vocês tenham conhecido nosso amor, perderá o sentido chamá-lo de "desordenado". Também não haverá mais sentido em demitir as pessoas homossexuais que trabalham para as instituições eclesiásticas, assim como não terá nenhum sentido em rotular a nossa orientação sexual como “uma cruz" que devemos carregar ou nos tratar como não merecedores de proteção do governo civil.

Santo Padre, "venha e veja" por si mesmo como Deus se faz carne em nossas liturgias e em nossos amores, assim como em qualquer outra comunidade católica. E, então, não mais terá que se perguntar: "Quem sou eu para julgar?", pois mais uma vez ecoando o apóstolo João, você poderá falar que “pelo que temos visto com os nossos olhos, o que temos contemplado e as nossas mãos tem apalpado, ... damos testemunho e vos anunciamos a vida eterna. . . para que também vós tenham comunhão  conosco ... para que a nossa alegria seja completa."

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