quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O significado do encontro do Papa Francisco com Kim Davis


Se alguém ainda suspeitava de que o Papa Francisco não queria realmente dizer aquelas palavras duras que proferiu sobre a liberdade religiosa na semana passada nos Estados Unidos, então a informação de que ele teve um encontro privada com a tabeliã Kim Davis, do Kentucky, certamente deve servir para dissipar qualquer dúvida.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 30-09-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa, e está no site do IHU.

O encontro entre os dois foi primeiramente informado por Robert Moynihan da revista Inside the Vatican. Na quarta-feira um porta-voz do Vaticano disse: “Não nego que a reunião tenha ocorrido, porém não tenho comentários a acrescentar”.

Tomada em conjunto com a sua parada não programada para ver as Irmãzinhas dos Pobres, o encontro com Kim Davis significou que o Papa Francisco apoia pessoalmente os símbolos principais dos dois debates sobre a liberdade religiosa nos EUA: aquele em torno dos métodos anticoncepcionais aprovados no governo Obama, e a objeção de consciência a respeito do casamento gay.

Antes de continuarmos a falar sobre o significado destes gestos, lancemos algumas advertências necessárias.

Antes de tudo, o fato de que alguém arranjou um breve encontro entre Francisco e a tabeliã Kim Davis não significa necessariamente que Francisco iniciou o contato, ou mesmo que ele necessariamente compreende todas as dimensões do caso envolvendo a funcionária pública. Segundo ela própria, tratou-se de um brevíssimo cumprimento, apenas o suficiente para o papa lhe dizer que “permaneça firme” e receber dele um rosário. Pedir orações e dar um rosário abençoado às pessoas após um encontro é um gesto habitual deste papa.

Seria um exagero de interpretação considerar este momento dos dois como um endosso de tudo o que Kim Davis disse ou fez.

Além disso, não sabemos ainda como Francisco vê o equilíbrio entre honrar a própria consciência e cumprir com as responsabilidades em cargos públicos, pois ele nunca abordou essa questão em seus discursos.

O fato de o Vaticano ter optado por não comentar significa, provavelmente, ao menos em parte, que as suas autoridades não desejam se ver imersos num debate detalhado a respeito do assunto.

Dito isso, não há outra forma de ver o encontro senão como um gesto amplo de apoio do papa pela objeção de consciência diante da legislação em questão, especialmente quando tomado em conjunto com a sua declaração a bordo do avião papal de que seguir a própria consciência em tal situação é um “direito humano”: um direito, insistia ele, que também pertence aos funcionários do governo.

Então, o que este encontro significa?

Em primeiro lugar, significa que Francisco fortaleceu bastante o lado dos bispos americanos e outros que defendem a liberdade religiosa.

Na esteira de uma viagem enormemente bem-sucedida, em que Francisco foi elogiado por suas posições que vão desde as mudanças climáticas até a imigração e ao combate à pobreza, será mais difícil falar sobre o assunto sem, pelo menos, reconhecer as suas preocupações para com a liberdade religiosa.

Em segundo lugar, Francisco talvez melhorou os ares em torno do próximo Sínodo dos Bispos sobre a família, a se iniciar neste domingo.

Na edição do ano passado, a questão sobre o quão acolhedora a Igreja deveria ser para com os gays e lésbicas foi um assunto bastante debatido, em parte porque os conservadores estavam preocupados de que a Igreja acabaria se rebaixando, ao ter que “redefinir” o matrimônio.

Ao realizar um encontro com Kim Davis, Francisco assegurou aos conservadores que ele não está pensando em alterar o ensinamento da Igreja no tocante ao casamento homoafetivo.

Ironicamente, este mesmo encontro pode, na verdade, aumentar as chances de o Sínodo recomendar uma abordagem mais pastoral aos relacionamentos homossexuais, uma vez que não haverá o mesmo temor sobre aonde tal abertura pode levar.

Em terceiro lugar, Francisco também pôs abaixo as impressões de um racha com os bispos americanos no tocante a “guerras culturais”.

Sim, Francisco pediu que os bispos rejeitassem a retórica “dura e divisionista” e abraçassem o diálogo como o método. Mas isso não implica que ele acredita que o conteúdo das preocupações dos prelados esteja equivocado.

Em quarto e último lugar, este encontro com a tabeliã confirma que a viagem aos EUA representou a estreia pública do “Francisco 2.0”, ou seja: um papa mais claramente percebido como estando em continuidade com a tradição e o ensino católico, bem como em solidariedade com papas anteriores e demais bispos.

Em termos puramente políticos, Francisco é uma figura que desafia completamente as divisões habituais de esquerda/direita, sendo igualmente capaz de se encontrar com Kim Davis e abraçar crianças imigrantes pobres em uma escola no bairro de Harlem, Nova York, ambos sendo partes de um continuum de preocupação pela dignidade humana.

Isso vai ser fonte de consolo para alguns e consternação para os outros, mas, em todo caso, agora faz parte oficial da narrativa do Papa Francisco.

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