segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Carta aberta ao Papa Francisco


Querido Papa Francisco,


Nós somos o Grupo de Ação Pastoral da Diversidade, um grupo leigo de pessoas católicas lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais e temos por missão acolher aqueles e aquelas que se sentem excluídos para que, reunidos em nome de Cristo, celebremos juntos a vida que o Pai Criador deu a cada um de nós. Assim, decidimos escrever esta carta aberta para compartilhar com Vossa Santidade as muitas alegrias e esperanças e também algumas tristezas e angústias, que vivenciamos diariamente, por ocasião do 5º aniversário desta nossa comunidade de fé na cidade de São Paulo, Brasil.

Santo Padre, desde sua eleição, temos nos sentido cada vez mais desafiados a trabalhar pelo alegre anúncio do Evangelho, motivados principalmente pela atenção especial que você tem dado aos pobres e aos marginalizados. Nós o vimos lavando os pés de mulheres e de não cristãos, lemos suas palavras firmes sobre o cuidado com nossa casa comum, vibramos com seus abraços e sorrisos, mas fomos especialmente fortalecidos por suas palavras tão diretas, enquanto retornava de sua visita ao Brasil, respondendo sobre sacerdotes homossexuais: "Se uma pessoa é gay, e procura o Senhor, e tem boa vontade, quem sou eu para julgar?".

Enquanto grupo ou como indivíduos, sabemos bem como é sentir-se julgado. Somos julgados por sermos honestos sobre nossa sexualidade, por buscarmos uma vida sem mentiras e simplesmente por ser exatamente quem somos e o que somos: pessoas católicas e LGBT. Mas tal como Zaqueu, nós não desistimos frente às adversidades e seguimos firmes trilhando o caminho que Jesus nos vai mostrando. Conservamos nossa fé mesmo sendo incompreendidos e muitas vezes perseguidos, inclusive dentro da própria Igreja, mas buscamos refúgio junto a Deus que nos ajuda superando qualquer mágoa ou ressentimento.

Também nos sentimos encorajados pelo seu discurso no encerramento deste Sínodo, repreendendo “os corações fechados, que escondidos por detrás dos ensinamentos da Igreja ou de boas intenções, sentam-se na cadeira de Moisés e julgam, às vezes com superioridade e superficialidade, situações difíceis e famílias feridas.” E muito embora os bispos não tenham proferido uma declaração mais firme pela aceitação, nem tampouco contra a criminalização das pessoas LGBTs em tantos países onde a Igreja está presente, somos gratos às vozes que se ergueram, preocupadas com as injustas discriminações que sofremos, abrindo assim novas possibilidades de sermos acolhidos na Casa do Pai.

Nosso Catecismo orienta que não se deve cometer nenhum tipo de discriminação injusta para com as pessoas LGBT, porém raramente vivenciamos na Igreja um acolhimento sincero, aberto e fraterno. Os esforços pastorais que hoje nos são direcionados quase sempre ocorrem de forma clandestina. Também nos entristece a acusação de muitos pastores de que promovemos a destruição da família, pois ainda que sejamos diferentes, não estamos excluídos ou em oposição a essa realidade. Cada um de nós é um filho ou uma filha, um pai ou uma mãe, um companheiro ou uma companheira. Essa visão que pretende nos empurrar para o “outro lado da história” junto com nossa penosa experiência de não aceitação por nossas próprias famílias e pela Igreja, traz apenas tristes e dramáticas consequências, porque os julgamentos, as violências e as ridicularizações que sofremos cotidianamente são particularmente dolorosos quando partem de um irmão cristão, leigo ou religioso.

Mas para além das dificuldades, nos sentimos impulsionados pelo Espírito Santo, animados por cada irmão e cada irmã que – como nós – encontram-se à margem do caminho. É por isso que toda vez que nos deparamos com uma porta ou um coração fechado, seguimos o exemplo de Bartimeu, clamando sem descanso pela graça do Senhor em nossas vidas, mesmo que também hoje existam discípulos tentando abafar nossas vozes.

Despedimo-nos pedindo sua bênção apostólica e nos comprometendo a tê-lo sempre em nossas orações. Queremos seguir juntos na construção do Reino, a serviço da fraternidade, da justiça e da paz, contando sempre com a intercessão de nossa mãe Maria, desatadora dos nós e consoladora dos aflitos e humilhados, e pedindo que o Senhor que nos criou abençoe seu ministério à frente da Igreja e abençoe a todos e todas nós.

São Paulo, Festa de Todos os Santos no ano da graça de 2015.




GAPD
Grupo de Ação Pastoral da Diversidade
Email: diversidadesp@hotmail.com

Membro de
Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT

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