domingo, 22 de novembro de 2015

Uma Igreja misericordiosa para um mundo ferido.

Como ressaltou Santo Inácio de Loyola, "o amor deve consistir mais em obras que em palavras" (Exercícios Espirituais, n. 230). As obras de misericórdia são a nossa resposta ao chamado do nosso mundo ferido.

O Instituto Humanitas Unisinos publicou o editorial comum de 10 revistas dos jesuítas europeus: La Civiltà Cattolica (Itália), Anoichtoi Horizontes (Grécia), Brotéria (Portugal), Choisir (Suíça), Ètudes (França), Razón y Fe (Espanha), Signum (Dinamarca), Stimmen der Zeit (Alemanha), A Szív (Hungria), Thinking Faith (Reino Unido). O artigo está no sítio da revista La Civiltà Cattolica, 19-11-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Queremos partir de três expressões do Papa Francisco, pequenas sugestões úteis para concentrar as nossas reflexões sobre o iminente Ano Jubilar da Misericórdia.

No dia 17 de março de 2013, no primeiro Ângelus depois da sua eleição a papa, Jorge Mario Bergoglio citou um livro do cardeal Kasper, Misericordia. Concetto fondamentale del vangelo – Chiave della vita cristiana, dizendo: "E me fez muito bem aquele livro, muito bem...". Não muitos, na época, podiam intuir a importância desse assunto para o seu pontificado.

Naqueles momentos, era igualmente desconhecido o significado do seu lema episcopal Miserando atque eligendo, que o próprio Francisco, depois, explicou durante a entrevista que apareceu na nossa revista (cf. A. Spadaro, "Entrevista com o Papa Francisco", em La Civiltà Cattolica, 2013, IV, p. 449-477). O papa dizia: "O gerúndio latino miserando parece-me intraduzível, seja em italiano, seja em espanhol. Gosto de traduzi-lo com outro gerúndio que não existe: misericordiando".

A terceira inspiração nos vem dessa mesma entrevista, quando o Papa Francisco afirma claramente "que aquilo de que a Igreja mais precisa hoje é a capacidade de curar as feridas e de aquecer o coração dos fiéis, a proximidade. Vejo a Igreja como um hospital de campanha depois de uma batalha".

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Quem conserva na mente essas sugestões não pode ficar surpreso com o papel que a misericórdia assumiu no magistério ordinário do Papa Francisco, nem com a sua convocação do Ano Jubilar da Misericórdia. Naturalmente, a misericórdia está no centro da revelação bíblica, porque se encontra no coração do nosso Deus trinitário.

Em uma perspectiva teoantropológica, São Tomás de Aquino considerava que "entre todas as virtudes que dizem respeito ao próximo, a primeira é a misericórdia, e o seu ato é o mais excelente: pois socorrer a miséria alheia é, em si mesmo, um ato digno de quem é superior ou melhor" (Sum. theol., II-II, q. 30, a. 4), mostrando bem, assim, que a misericórdia tem tanto um componente afetivo, quanto um componente efetivo.

O Ano Jubilar da Misericórdia terá início no dia 8 de dezembro, data que foi escolhida "porque é cheia de significado na história recente da Igreja". Iniciará com a abertura da Porta Santa, no "quinquagésimo aniversário da conclusão do Concílio Ecumênico Vaticano II", um Concílio que seguiu o convite do Papa João XXIII: "Abramos as janelas da Igreja para deixar entrar o ar fresco do Espírito".

Na exortação apostólica do Papa Francisco Evangelii gaudium (EG) lemos outro convite para ser uma Igreja aberta, porque "a Igreja 'em saída' é uma Igreja com as portas abertas" (EG 46). Abrir os próprios corações e as próprias vidas é um modo de mostrar misericórdia.

Não há contraposição entre um partido da misericórdia e um partido da verdade. Também não existe qualquer contradição entre o Papa Francisco e os seus antecessores, se se tiver presentes, por exemplo, a Caritas in veritate, de Bento XVI, ou a Dives in misericordia, de João Paulo II.

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A constituição dogmática conciliar sobre a Igreja, Lumen gentium (LG), afirma com autoridade: assim como "Cristo foi enviado pelo Pai 'a evangelizar os pobres... a curar os contritos de coração' (Lc 4, 18), 'a procurar e salvar o que se havia perdido' (Lc 19,10), de igual modo, a Igreja abraça com amor todos os afligidos pela fraqueza humana; mais ainda, reconhece nos pobres e nos que sofrem a imagem do seu Fundador pobre e sofredor, procura aliviar as sua indigência e tenta servir neles a Cristo" (LG 8).

Trata-se de um critério-guia para o compromisso da Igreja e para o seu comportamento em uma série de situações. De fato, como observa a bula papal de convocação do Jubileu, a Igreja é chamada a ser um "oásis de misericórdia", e não apenas a Igreja em geral, mas todas as "paróquias, comunidades, associações e movimentos – em suma, onde houver cristãos" (Papa Francisco, Misericordiae vultus, n. 12).

Citemos dois exemplos de aplicação prática desse princípio, ambos delicados e significativos. O primeiro se refere ao aborto. Como já é bem conhecido, o Papa Francisco decidiu "conceder a todos os sacerdotes para o Ano Jubilar a faculdade de absolver do pecado de aborto quantos o cometeram e, arrependidos de coração, pedirem que lhes seja perdoado" (Carta a Dom Fisichella, 1º de setembro de 2015).

Certamente, isso não nega o "drama do aborto", que é "profundamente injusto". Mas, continua o papa, um "acolhimento genuíno [pode-se conjugar] com uma reflexão que ajude a compreender o pecado cometido e indicar um percurso de conversão autêntica para conseguir entender o verdadeiro e generoso perdão do Pai, que tudo renova com a Sua presença".

O amor de Deus não é nem rígido, nem permissivo. Também não pode sê-lo a práxis misericordiosa da Igreja.

Algo semelhante pode ser dito no que diz respeito ao segundo exemplo que trazemos, referente à complexa realidade das famílias, com os seus fracassos, sofrimentos, fraturas e becos sem saída. A Igreja, como mãe, reconhece a necessidade de uma misericordiosa atenção pastoral em uma variedade de situações, dentre as quais: os casais civilmente casados ou em coabitação; as famílias feridas, que incluem as famílias monoparentais; as pessoas que estão separadas; os divorciados – sejam ou não recasados – e as pessoas de orientação homossexual.

A misericórdia de Deus deve ser encarnada na Igreja de Cristo, mostrando caritas in veritate de modo concreto e convincente para as pessoas em todas essas situações.

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Se a Lumen gentium se concentra na Igreja olhando mais para dentro, outro grande documento do Concílio, a constituição pastoral Gaudium et spes (GS), volta a sua atenção para a Igreja no mundo, na sua dimensão ad extra.

A misericórdia é o coração da identidade, das relações e da vida da Igreja. Mas a misericórdia também se encontra no centro da atividade missionária da Igreja, porque todas as realidades humanas, e a sociedade como um todo, são movidas pelo coração de Deus e a ele se orientam. "O Senhor é o fim da história humana, o ponto para onde tendem os desejos da história e da civilização, o centro do gênero humano, a alegria de todos os corações e a plenitude das suas aspirações" (GS 45).

Voltam à mente e ao coração as conhecidas frases iniciais da Gaudium et spes: "As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração" (GS 1).

Ora, como se aplica essa mensagem ao nosso mundo atual? É claro, ela ecoa um bom número de situações difíceis, especialmente nesta "cultura da exclusão" em que vivemos. Sem dúvida, existem muitos problemas relevantes, mas os limites do espaço disponível nos levam a nos concentrarmos apenas em um deles.

Este Editorial é assinado por 10 revistas dos jesuítas da Europa, e é evidente que o nosso continente hoje está enfrentando uma série de crises difíceis: uma crise de refugiados, uma crise humanitária, uma crise política. O que a misericórdia tem a dizer nessa situação?

O papa mesmo lançou luz sobre esse tema em diversas ocasiões, dentre as quais se destaca a sua recente mensagem para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, em que ele fornece a resposta da misericórdia a esse desafio premente: se formos honestos com nós mesmos e com a realidade, reconheceremos que "o Evangelho da misericórdia sacode as consciências, impede que nos habituemos ao sofrimento do outro e indica caminhos de resposta que se radicam nas virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade, concretizando-se nas obras de misericórdia espiritual e corporal".

Então, como podemos enfrentar a atual crise dos refugiados nessa perspectiva evangélica? Por um lado, reconhecemos com todo o coração a resposta pronta e generosa de um número significativo de pessoas, famílias, comunidades e organizações de base da sociedade civil. A solidariedade nasce do coração misericordioso. Em vez de reagir com medo ou egoísmo, a maioria das sociedades europeias respondeu com o coração, fazendo florescer as suas raízes cristãs, às vezes ignoradas ou descartadas.

Por outro lado, devemos dizer que esse tipo de resposta pessoal, embora necessário, não é suficiente. A caridade cristã tem uma dimensão política. E a misericórdia precisa se encarnar no âmbito do direito.

Sobretudo quando nos referimos aos refugiados, como neste caso, o direito internacional deve ser aplicado levando em conta o aspecto vinculante, para todos os Estados, dos acordos assinados. A decisão de assistir às pessoas que fogem da guerra não é facultativa de alguns políticos: trata-se de um requisito das normativas internacionais e dos direitos humanos.

Por fim, deve-se dizer que os planos de emergência humanitária não podem obscurecer a necessidade de programas de integração doméstica de longo prazo, assim como de um sério compromisso com processos de paz pelo fim das guerras nos países de origem dos refugiados.

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A Misericordiae vultus é um convite a ser "misericordiosos como o Pai". Assim como o pai da parábola de Lucas nunca perde o filho de vista (cf. Lc 15, 20), todos somos convidados a ficar de olho nos nossos irmãos e irmãs, a prestar atenção às suas situações e exigências, a descobrir os seus rostos, a reconhecer uma humanidade comum.

Como destacou o filósofo judeu-francês Emmanuel Lévinas, o rosto do outro (o seu olhar = vultus) cria uma obrigação ética: "O rosto me fala e, assim, me convida a uma relação. [...] O rosto abre o discurso original cuja primeira palavra é uma obrigação" (Totalidade e infinito, p. 198; 201).

Em uma ética e cristã, nós respondemos a esse chamado ajudando o outro nas suas necessidades. Como ressaltou Santo Inácio de Loyola, "o amor deve consistir mais em obras que em palavras" (Exercícios Espirituais, n. 230). As obras de misericórdia são a nossa resposta ao chamado do nosso mundo ferido.

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